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12.12.01
Mario:
Links - Eu acho a maioria das explicações sobre o budismo desnecessariamente complicadas. Dão uma noção falsa de que é algum tipo de esoterismo maluco ou misticismo new age. Para começar bem, recomendo uma apresentação sensacional do Zen em Flash: www.do-not-zzz.com.
Para ter uma visão filosófica/teórica das várias correntes, um bom ponto de partida é o dharmanet.org. É só ir seguindo os links pra trombar com um monte de artigos interessantes. Mas já aviso que é complicado. Existe um site brasileiro muito caprichado, com farto material em português sobre o Zen, a corrente tibetana e muito mais, mas não estou conseguindo entrar no site. No meu blog eu postei algo sobre uma Roda de Samsara em Flash. Nesse site (não lembro qual agora) tem uma biblioteca inteira de budismo em PDF para download. Filosofia - No que me concerne: o cerne (rimou!) da doutrina Zen não é nada mais do que uma versão do velho dito grego: "conhece a ti mesmo". Simples assim. A idéia básica é que a pessoa pode investigar a essência do universo mergulhando na própria mente e aprendendo a abstrair a consciência da realidade. Lógico que não existe como demonstrar nem ensinar um negócio desses: a experiência individual é tudo, o mestre só aparece para dar uma mão. O Zen postula que, se toda a nossa desgraça provém da nossa ignorância, o acúmulo de conhecimento em si também não serve para nada. É um pragmatismo total. Essa é a filosofia que eu gosto. Agora, se vc prefere uma cosmogonia mítica com paraísos e infernos, deuses, demônios e santos, rituais rigorosos, amuletos e rezas místicas, também há variações de budismo que comportam isso. Não são a minha praia, mas... Iluminação ("satori") - D. T. Suzuki, que certamente foi um iluminado, escreveu mais de 20 livros sobre o assunto sem conseguir definir exatamente o que é :) Em tese, é o estado de consciência e tranquilidade absolutas, mas é claro que isso é muito abstrato. Tem gente que pensa que chegou lá e vive em engano, como no caso de um livro que li, chamado sugestivamente de "No Caminho do Satori", no qual a autora descreve sua peregrinação espiritual, e é tão cheio de futilidades e besteiras que vc pensa: "não se enxerga, não?" Tem gente que acha que a iluminação tem que ser como a do próprio Buda, que ficou tentando durante anos sem sucesso, mas um belo dia teve em estalo e - pof! - estava iluminado. Outros acham que dá pra adquirir isso progressivamente. E outros não estão nem aí. O que todos concordam é que deve se fazer por merecer... O sucesso não vem de graça. Há um princípio claro de causalidade, como na física de Newton. Existe também um princípio tipo "cachorro correndo atrás do rabo" segundo o qual não adianta forçar resultados; o seu progresso tem que vir naturalmente. Outro princípio é o da impermanência, pelo qual não se pode almejar que nada seja eterno sem sofrer por causa disso. Mas em vez de ser uma visão pessimista, pra mim é dinâmica e a priori evolutiva. O Buda não é um deus nem um ser sobre-humano. Ele mesmo insistia que era só um sujeito que teve a manha de atingir uma consciência estável. Não tem nada de inerentemente metafísico. Quando perguntavam ao propriamente dito sobre a existência de Deus, por exemplo, ele se recusava a responder: "Tanto faz. Tem problemas muito mais prementes a resolver na sua vida do que discutir se Deus existe!" No entanto, hoje tem seitas que tratam o Buda como um deus e páram por aí. Preguiça?... Política - Dá para fazer uma ponte entre o Zen e o anarquismo? O Zen não tem nada de explicitamente político. Existe em comum uma idéia forte de que o indivíduo é completamente auto-responsável, não apenas pelo que faz como pelo que sofre. Mas o Zen não é contra a autoridade; é indiferente. O budismo em geral afirma que qualquer um pode virar um Buda (pessoa desperta), desde que se esforce para isso. Uma doutrina dessas não tem como servir de pilar à autoridade... Tanto que essa foi uma razão para a alternância entre fases de modismo e ostracismo que o budismo (rimou de novo) teve entre as classes dominantes da China e do Japão. Dica: a tendência original da cultura budista a uma auto-realização egoísta, sem benefício algum à civilização, levou os seguidores imediatos do Buda (século 5 a.C.) a criarem um conselho e fundarem uma comunidade (Samgha) para que uns se ajudassem aos outros e passassem adiante os ensinamentos (Dharma).
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